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UBS Quilombola Gurugi

Atualizado: 27 de Ago de 2019

Concurso Nacional de Arquitetura para Unidade Básica de Saúde para a Comunidade Quilombola do Gurugi no município do Conde na Paraíba.



“RETORNAR AO PASSADO PARA RESSIGNIFICAR O PRESENTE E CONSTRUIR O FUTURO”

É o significado carregado pelo símbolo Sankofa, um dos ideogramas mais utilizados pelo sistema de escrita Adinkra, que compunha as várias formas de expressão escrita existentes na antiga África, utilizado pelos povos Akan, da África Central.


Esse é o espírito do projeto para a Unidade Básica de Sáude na Comunidade Quilombola do Gurugi. Mergulhar nas tradições da arquitetura africana através da oralidade e da escrita, compreender as influências carregadas na memória corporal dos habitantes locais que ocupam um território que historicamente agregou também a presença indígena. As misturas que constituíram o que hoje é o Gurugi.


CONCEITO: Arquitetura e os símbolos


O edifício proposto tem como referência a tradição dos dois povos originários da África: os bantos e os sudaneses, povos que vieram em maior quantidade para o Brasil, e a sua influência nos quilombos. Elementos físicos da arquitetura e subjetivos dos costumes foram resgatados e simbolicamente utilizados como norte para o projeto.


A arquitetura africana tem como característica os seus assentamentos familiares – Kraal. O Kraal é um território cercado que contém em seu interior diversas cubatas, construção monofuncional: locais de trabalho, horta, árvores frutíferas e geradoras de sombra (morada dos orixás), espaços cerimoniais, cercados de animais, etc. A forma de organização valorizava sempre a ampla circulação de ar nas construções para evitar o aquecimento solar e driblar os efeitos nocivos da umidade. O habitar extrapola os limites da construção e se espalha pelos terreiros, ou bosques sagrados, periféricos as cubatas, destinados às trocas de conhecimentos, as festividades e as práticas religiosas.


As Cubatas: Construção em taipa que abriga uma uma única atividade (cozinhar, dormir, sala de trabalho, sanitário).

Kilombo: a palavra kilombo é originária da língua banto umbundo, e se refere a um tipo de instituição sociopolítica, a conjunção de diversos kraals formava uma aldeia denominada kilombo.

Igbo: as casas pátio.

Terreiros: ou bosques sagrados, periféricos as kubatas, destinados as práticas religiosas.


Dessa forma as salas destinadas ao atendimento a população formam simbolicamente cubatas, destacadas através do material (tijolos de solo cimento) e soltas da composição volumétrica. A coberta geral do edifício, desprendida das “cubatas”, juntamente com o pátio central permite a circulação de ar, tornando a área de espera uma agradável sombra, ventilada e arborizada. O edifício se desenvolve como um terreiro, aberto, em que o cuidado da saúde se dá também através da relação interior-exterior com a harmonização elementos construídos - elementos naturais.





Perifericamente ao edifício, de forma a garantir uma continuidade espacial com o pátio, se encontra um espaço de eventos e uma arquibancada conformada a partir do declive natural do terreno. Lindeiro a esse espaço encontra-se a horta de fácil acesso e contribuindo para a relação exterior-interior do projeto.


O verde, portanto, é expoente do projeto marcado no pátio interior com a árvore, na vegetação periférica ao edifício (horta e terreiro) e o jardim frontal que recepciona os usuários da UBS.


A árvore que se encontra no centro do pátio vem como símbolo da tradição oral africana, sendo a sombra gerada por sua copa um espaço tradicional de troca de conhecimentos. A tradição africana assim como a tradição quilombola tem uma cultura oral, por meio da oralidade é que era passado os ensinamentos. Os contadores de histórias são os responsáveis pela herança da ancestralidade e sabedoria que eram transmitidas para as gerações.


O verde, portanto, é expoente do projeto marcado no pátio interior com a árvore, na vegetação periférica ao edifício (horta e terreiro) e o jardim frontal que recepciona os pacientes.


Mesmo com a força da oralidade não podemos esquecer do antigo sistema de escrita da África, tendo destaque as Adinkras. Inspirados nela utilizamos o símbolo Mframma-Dan (preparo, fortaleza, amparo social e elegância) para desenvolver o detalhamento do gradil que proporciona vedação da edificação, garantindo a ventilação cruzada.


Fluxos


A delimitação dos fluxos foi alcançada através da divisão espacial de modo que na porção externa lateral direita concentra-se o fluxo de carros, estacionamento, carga e descarga, retirada de lixo. A porção mais interior e restrita do edifício encontra-se as salas de serviços e usos internos como almoxarifado, DML, copa, sala de reuniões. Já a porção esquerda do edifício, marcada pela fluidez espacial e a forte presença do verde e da circulação natural de ar, abriga as salas de uso comum, consultórios, horta, o “terreiro”.


Materialidade


O edifício tem como sistemas construtivos o concreto armado e o tijolo de solo cimento.

O tijolo de solo cimento é obtido a partir da mistura de partes proporcionais de solo, cimento e água e é uma evolução das construções de taipa e adobe.


Após um processo de “cura” endurece ganhando consistência e durabilidade. Graças da cura hidráulica: o produto não é cozido em forno – processo que consome madeira e ainda resulta na emissão de gases poluentes.

É um material resistente que oferece perfeito acabamento nas faces prensadas, dispensa reboco ou chapisco e permite um maior conforto térmico e acústico. Além disso, evita a proliferação de pragas e insetos nocivos à saúde.


O concreto armado utilizado na coberta geral do edifício foi escolhido graças ao seu potencial tectônico. Laje e vigas são utilizadas de forma aparente para valorizar o seu sistema construtivo de forma a contribuir para a espacialidade. Um grande rasgo na laje para passagem de luz, ar e vegetação também foi explorado, fruto do potencial plástico do material.


FICHA TÉCNICA

Localização: Comunidade Quilombola Gurugi, Conde (PB)

Projeto e pesquisa: André Moraes e Carol Mapurunga (azulpitanga) e Eliabi Antas (asa arquitetura)

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